3.8.13

The end of a new beginning


Texto de António Olaio

Fotografia de Susana Paiva

“O esforço do reflexo” é um solo, desde logo se assume como um solo. Estamos perante duas personagens, mas esta ópera apresenta-se como sendo um solo… Logo, é na certeza de que se trata de um solo que a temos de olhar, porque nos dizem que assim é. 
Nesta ópera, ou melhor, nesta “oPrá do filme ”, assim se exponenciam os jogos de espelhos, desde os espelhos que estão mesmo lá, reflectindo o que eles sabem reflectir: a luz, as luzes, a luz das coisas, como se reflectissem as próprias coisas, aos jogos de espelhos mentais que entendem a realidade como um jogo de reflexos que se pode inverter, chegando a uma só entidade que se teria desdobrado, caleidoscópica. 
E o puro devir da multiplicação caleidoscópica das luzes e das coisas, num espectáculo que nos diz tratar-se de um solo, implode assim num corpo que não se limita a ser metafórico. Uma existência que é, mesmo. Para além das aparências, causador de todas as aparências. 
O Shadowman é o que diz ser, na ideia de sombra como variação do reflexo, o avesso do reflexo. E o solo, mais do que ser o solo da Yella, é o da entidade que resulta de todos os jogos de reflexos se os pudéssemos inverter. A Yella será certamente a personagem polarizadora de tudo isto. A cara de tudo isto? A cara que canta “my face is my name” (my name is my face…). Imagem residual deste ser quando trespassa o universo tridimensional (“nasceu no planeta Terra em 77, após queda de um cometa por identificar”…), imagem na qual a cara é o nome mas também o nome é a cara, a imagem, nesta sublime manifestação da pictorialidade do acto de nomear e, vice-versa, da dimensão conceptual do pictórico, da imagem, vice-versa, porque é de espelhos que aqui tratamos. 
“Um esforço muscular de um cérebro que se investiga a si mesmo”… Um “cérebro muscular” neste “esforço do reflexo”. O solo de um cérebro. O cérebro do princípio de todas as coisas. O princípio de todas as coisas. O princípio pelo qual todas as coisas o são… o princípio que poderíamos conhecer se pudéssemos inverter todos os jogos de espelhos. 
O que vimos ontem no Teatro Esther de Carvalho, em Montemor-o-Velho, parece que a ele pertence, assombrando-o para sempre. Este teatro certamente é do tempo em que as pessoas ainda tinham capacidade de maravilhamento. E Yella faz lembrar esse tempo, ou a possibilidade desse tempo ter existido. Mas, mais do que o prazer masoquista da celebração da impossibilidade de nos maravilharmos, aqui vemos que afinal nos maravilhamos mesmo. E mesmo com espelhos, luzes, reflexos, fumos, brilhos. Maravilhoso artesanal, transparente nos seus mecanismos, porque é exposta a forma de o fazer. Como na máquina de costura cujo motor faz rodar um círculo, como uma Lua, onde uma dançarina rodopia, como numa caixa de música, imagem em movimento, cinema antes de o ser, o devir que a imagem em movimento terá perdido quando se tornou sobretudo cinema. 
“This is the end of a new beginning”, é a frase que aparece depois do fim, ou melhor, depois de “THE END”. Fragmento final de um filme que não vimos, que teremos visto noutras formas, ou imagens finais disto tudo que engloba todas as possibilidades de imagem onde os filmes também estão? 
“This is the end of a new beginning”… ao ler esta frase, ficamos presos nela, é uma frase sem saída, onde permanecemos a bater contra o espelho, a bater até sangrar. Até sangrar, e depois também, até a dor desaparecer, por não existir mais nada a não ser ela. 
Um novo começo que começa acabado. Impossibilidade pura, se aqui não tratássemos de espelhos, de um tempo que se espelha, preso nos seus reflexos.
Parece triste mas não é.
Porque é sempre a consciência das coisas serem assim que nos faz fazer arte e gostar dela.

EM ENSAIO | Esforço do Reflexo | Ye77a

Fotografias de Susana Paiva






ESPECTÁCULO | Cromotografia | Teatro da Garagem

Vídeo de Hugo Barbosa e Pamela Gallo